sexta-feira, 2 de maio de 2014

Desta vez eu não chorei.

      Minha aproximação com o movimento feminista me fez perceber que todos os tipos de violências, insultos e privilégios que não tive não eram naturais e muito menos culpa minha. Cresci em um lar, dividindo tudo com a minha mãe e nunca tendo nada, nem mesmo meu próprio espaço, enquanto meu irmão possuía tudo. Essa relação de poder sempre me incomodou, porém atribuía como causa a coisa privada, já que se passava dentro de meu lar. Desde pequena me questionava sobre a decisão de ter que dividir cama com a minha mãe, sob o discurso de que meu irmão precisava de espaço "porque era homem". E o meu espaço? Meu espaço não estava em questão, eu que me virasse até mesmo em minha própria adolescência e no meu período de descobertas, enquanto o homem da casa possuía seu próprio reino particular.
Saí de casa, e pouca coisa mudou. Até hoje, para mim o que sobra são as sobras, o tempo livre, ou os intervalos onde por uma suposta caridade me é permitido usar coisas que deveriam ser de direito de ambos. Esse pequeno fato, já acarretou diversas brigas, onde sempre eu era silenciada, ouvindo dizer para eu ficar quieta, ou deveria calar a boca. Ou até mesmo que brigava à toa, e que era uma vagabunda. Tudo terminava em ofensas misóginas, em mais do mesmo.
E eu sempre surtava, acabava soluçando de tanto chorar, quebrava coisas, ameaçava de sumir, afirmando mais a imagem de “mulher louca que briga por nada” que colocavam em cima de mim. E essa briga se repetiu hoje. Quando ouvi esse discurso, me subiu todo aquela raiva, lembrando de todas as vezes em que ele mandava e decidia quando e como eu usaria minhas coisas e meu tempo, pois como foi dito, o poder estava dado a ele.
A diferença de hoje para dois anos atrás, ou até mesmo a vida inteira, foi apenas uma: dessa vez eu não surtei, não arremessei coisas e não chorei. Observei toda a contradição do discurso e toda a pouca intolerância em estar do outro lado. Conforme fui crescendo, acho que fui aprendendo a pertencer ao lado que não possuía poder; e creio que para o lado que sempre mandou, seja impossível agora aprender a ser contrariado.
Eu fui acusada de “vagabunda”, mais uma vez. Essas discussões sempre terminam com esse tipo de acusações sobre mim, e muitas das vezes pensei ser pela coisa do capitalismo, onde só um serviço remunerado é valorizado; mas, hoje penso ser pela misoginia em classificar uma mulher como vagabunda.
Eu não cobro nenhuma boa vontade de homem em entender o peso desses xingamentos, não cobro nenhuma boa vontade dele rever os privilégios que teve e o tamanho da contradição em seu discurso... não cobro mesmo. Antes da esfera de militância que meu feminismo tem, existe um ser chamado mulher que eu sou, e que possui todas as singularidades e subjetividades. Então não quero me cobrem um feminismo pedagógico em situações que dizem respeito diretamente a mim. Eu não tenho paciência pra explicar o que chamar uma mulher de vagabunda significa. Não mesmo. Não para pessoas onde estou emocionalmente envolvida desde o começo da minha vida.
Ironicamente, no momento da briga, eu estava escrevendo um texto sobre misandria; sobre eu não acreditar nela enquanto conceito social, mas que como forma de auto-defesa, ela é válida sim. E foi isso que aconteceu.  Não permito mais que homem nenhum me faça surtar. Não permito mais me desestabilizar com discursinhos falsos projetados em mim. Eu aguentei uma vida inteira, e vou aguentar até o fim. Porque ser mulher é ser forte. Ser mulher é aguentar todas essas pequenas violências “bobas” desde pequena. Ser mulher é não ter seu espaço, é depender do homem para ele decidir por você, é ser chamada de vagabunda. E homem nenhum aguentaria isso cinco minutinhos, quem dirá uma vida. Misandria para mim é esse nojo que eu sinto a qualquer símbolo de masculinidade. Hoje foi mais um dia como tantos outros, a diferença foi que desta vez eu não chorei.

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