Ele tinha um cheiro que me
embrulhava o estômago do qual eu posso sentir até hoje. Meu agressor não era um
desconhecido e não me violou em uma esquina pela madrugada. Ele me violou
dentro da minha própria casa, dentro do meu próprio círculo social. Ele não
tinha a clássica imagem que as pessoas fazem de um agressor: estudava em uma
universidade prestigiada, sua família era conhecida, e se dizia revolucionário.
Eu tinha acabado de sair de uma sequência de relações lésbicas conturbadas e
estava fragilizada, tentando me convencer que o melhor seria ter uma relação
heterossexual. Desde o começo ele sabia disso. Desde o começo ele sabia que eu ainda
amava minha ex. Mas isso não o fez hesitar de se aproveitar do meu abismo
emocional. Um dia combinamos de sair para beber, e nossos amigos estavam em um
bar, mas ele disse achar melhor ficarmos em minha casa. Concordei. Lembro-me
quando ele entrou em meu apartamento eu só conseguia pensar: “Eu não quer ficar
com ele. Meu deus, o que eu faço agora?”. Mas ainda assim pensei que poderíamos
acabar a noite continuando amigos. Fomos à cozinha e enquanto ele abaixava para
colocar a cerveja para gelar, eu o olhava e só conseguia pensar: “Eu não quero mesmo”. Ao
som de algum metal farofa, bebíamos e falamos sobre revolução e socialismo. Ele
sentou no sofá de três lugares e eu sentei no de dois, de uma maneira a ocupar
o sofá inteiro. Na época eu não percebi o significado disso, mas hoje em dia
consigo ver quantos sinais meu corpo deu referente à: “Por favor, não invada
meu espaço”. Lembro-me que entre uma cerveja e outra, eu já estava mais
tranquila e até pensava como eu tinha sido boba em achar que era minha
obrigação ficar com ele, porque na verdade, ele nem estava pensando nisso. Eu
sabia que já estava muito bêbada pelo tom da minha voz e pelo foco que eu
conseguia ter ao meu redor. Mas para mim, tudo ia bem até aí. Sentei no chão
para trocar o dvd e ele sentou do meu lado. Essa hora eu senti um desespero,
pois ele se aproximava demais e eu movia meu corpo para trás em recuo. Não sei
quantas palavras ou quantos sinais uma garota precisa dar para o cara perceber
que ela não quer. Na verdade, ele percebeu, mas ignorou. Ele me beijou e foi o beijo
mais estranho que recebi, e enquanto me beijava de uma forma que me machucava,
empurrava meu corpo para trás com força. Eu estava acostumada com outros tipos
de beijos e com outros tipos de toque. Eu não consegui fazer nada, porque
pensava ser minha obrigação ficar com ele já que o deixei entrar na minha
casa. Eu não consigo descrever o misto de sentimentos que tive na hora: por
estar muito alterada pelo álcool, consenti. Mas mesmo muito bêbada, eu
conseguia ter uma fagulha de racionalidade e gritar por dentro que queria sumir
dali. Não passou nem dez segundos e ele veio com a mão abrindo o zíper
da minha calça. Disse que não queria e ele ainda insistiu: “tem certeza?”. Ele
conseguiu me fazer sentir culpada. Sentia vergonha por parecer careta ou conservadora.
Eu estava ali naquela sala com um turbilhão de sentimentos e tendo que agir de
maneira rápida frente a sequência de ações da parte dele. Resolvi tirar a blusa
como pedido de desculpa por não ter deixado ele abrir meu zíper. Ele estava
muito a vontade com a situação e subiu em cima de mim feito um ogro e fazia uns
barulhos estranhos. Era nojento. Eu conseguia sentir tudo, menos vontade de ir
adiante. No final, eu ainda me sentindo culpada por não ser “livre” o
suficiente para ter deixado ele me penetrar, pedi desculpas e falei que não
estava acostumada a estar com homens. E ele...aceitou as desculpas e disse meio
rindo: “Eu imaginei”. Ele sabia que eu era lésbica, sabia do meu sentimento por
outra pessoa, sabia que eu estava recuada, sabia que eu dei sinais o tempo
inteiro que não queria, e mesmo assim não hesitou em me violar dessa forma. Ele
estava preocupado com o próprio prazer. Lembro-me muito bem dessa noite, de todos os cheiros horrorosos e de toda a força que ele usava contra meu corpo. Lembro-me tão bem porque essa foi a primeira das vezes, já que eu estava muito empenhada em me tornar hetero, lembram?
sábado, 31 de maio de 2014
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