segunda-feira, 3 de novembro de 2025

oi

ainda me leio e ainda me sinto triste pela solidão, com a diferença de que não penso mais em morrer. pelo contrário, a possibilidade da morte tem se tornado cada vez mais assustadora. minha analista está de licença-maternidade e acredito que é a partir dessa ausência, inédita em seis anos, que me coloco a escrever. na leitura desse e do outro blog [orgasmocomsarcasmo] percebo que há significantes que se repetem em minha história, assim como em minha análise. o nada, talvez seja o mais importante deles. o que fazer com o nada? como contorná-lo? eis a minha grande questão de infância, adolescência e dos meus trinta e dois anos. algumas elaborações já foram feitas sobre o lugar que minha mãe ocupou para mim, como esse grande Outro, poderosíssimo e primordial. o lugar de nada? no sentido de buscar um olhar, uma palavra e o vazio receber? quando entrei na faculdade de psicologia, há mais ou menos quinze anos, me senti muito tomada pelo poema conquistas, de cynthia macdonald, a criança que esteliriza os pulsos e realiza uma amputação, buscando o olhar de uma mãe que não dava contornos. talvez minha maior cura com a análise tenha começado no dia em que minha analista interrogou o motivo pelo qual eu ainda continuava provocando amputações para ofertar à minha mãe. algum ponto de basta se fez desde então.


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

mãe

eu sinto raiva de mim, que no fundo, é raiva dela

eu quero machucá-la, mas acabo me machucando


meu coração não vai ter paz

domingo, 10 de maio de 2020

a verdade encontra-se embaixo da barra

pensamentos > pesquisa > compulsão > acha > esvazia


vazio.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Medeia

Sonho 1: carícias, eu e você.
Sonho 2: você fala o nome dela.
Sonho 3: fotos de mulheres em seu banheiro, acho a minha, e também a da minha amiga.
Sonho 4: existem fakes de mim pela internet, vários eus que desconheço espalhados pelo mundo.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Parte I: Assustada por tentar criar um espaço de mim, mas saber que este espaço já existe, assim como outros, perdidos no espaço tempo.


Parte II: Imagem especular. Eu sinto que ainda preciso me constituir, isso soa autoajuda babaca, ame a si mesmo, mas não é. O processo, na verdade, é o inverso. Eu me constituo na base do ódio e da tristeza, mas ainda assim, são substâncias. Não estou me alimentando de nada.


Parte III: Sou brasileira, pobre, tenho vinte e seis anos em meio a uma pandemia jamais vista. Me isolei socialmente, assim como o mundo todo, nada novo se não fosse uma autorização implícita que me retirasse do abismo. Meu abismo tem nome e se chama: sou a filha de um petroleiro e de uma dona de casa, ambos sem estudos. Ingressei na universidade via política pública, com dezessete anos. Eu me sentia especial nessa época, era um orgulho para a minha família. Pisei no abismo pela primeira vez quando terminei o sonho-brasileiro e me vi com nada em mãos. Não havia emprego e para os estudos em universidade pública eu ainda não era boa. Caso quisesse, eu teria que pagar. Dois anos assim, de novo virou, entrei em uma residência em uma universidade pública em um dos maiores hospitais pediátricos da América Latina. Mas nada é suficiente para o pobre. A vida é feita para quem tem capital, incluindo o capital de contatos. Todas as vagas são indicações. Eu me odeio por ser pobre. Eu me odeio por não pode investir uma grana para ter meu consultório porque estou preocupada em simplesmente ter um teto. Eu saí de uma cidade medíocre de dez mil habitantes, fui para a capital e de novo, estou de volta. Eu odeio voltar. Aqui eu não tenho quarto, lá eu morava na Vila Mariana. Eu odeio não ter teto. Ter teto é ter garantias.


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Cartas à Elise

Elise nunca se materializou. Elise é um delírio, um conto criado em cima da não-lucidez. Elise é real nos devaneios e sonhos. Elise é real na dor ao chegar alcoolizada e se lamentar pelo não-vivido. Elise é sempre o não.

Elise é o riso. Elise é sentir o coração pulsando depois de muito tempo. Elise se torna uma esperança.

Elise é o tapete estendido. É a vergonha oculta. O orgulho engolido.

Elise não existe. Só em memórias de não-ocorridos. Nisso Elise está viva.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Querida Ana,
tinha muita gente e pouco nós. Sorrisos enchiam a nossa mesa, eu repartia nossa comida, servia a nossa bebida e compartilhava dos sorrisos e conversas. Você se aquietava em outro ponto do cenário. Por um segundo tudo isso me ensandeceu. Quando todos foram embora o vazio continuava, sentamos lado a lado evitando olhar uma para a outra e enxergar esse nosso amor enviesado.Eu tentava te distrair falando de coisas aleatórias, você observava as suas unhas, soltava alguma interjeição e voltava para si mesma. Senti aquilo como uma morte.

Eu estralava os dedos. Voltamos ao ponto de antes quando eu evitava o toque ou qualquer proximidade ao seu corpo estralando os dedos. Com os homens sempre soube o limite que havia entre um gesto carinhoso e transmitir uma mensagem sexual. Entre nossos corpos tão semelhantes eu tinha medo. Acreditava que a qualquer momento as minhas mãos poderiam tocar o seu busto e imaginava as minhas nádegas no seu colo. Era muito forte essa imagem na minha cabeça, então evitava qualquer movimento em direção a você. Sempre acreditei que você conhecia todos esses limites. Mas talvez não…

Novamente você estava ao meu lado e minha única satisfação era saber que apesar do nosso distanciamento proposital você estava ali simplesmente por gozar da minha companhia. Mas novamente voltada para si. Se aquietava buscando tocar seus cabelos, olhar suas unhas, recostar a cabeça no sofá, como se ao se voltar para seu próprio corpo evitasse tocar o meu. Eu só estralava os dedos e conversava trivialidades de maneira frívola. Parecia que o tempo nunca havia passado, nada acontecido e eu estava de novo a sós com você, mas completamente só.

Eu lembro a primeira vez que sua risada tomou conta do meu quarto. Não era só sua risada que eu ouvia, mas a sua intimidade comigo. Aquilo que era mais difícil para você, querida, rir em alto e bom som na frente de outra pessoa estava acontecendo comigo. Sua risada alta era mais íntima do que seu corpo nu no meu colo. Nesse momento o mundo me pareceu mais concreto e real. Eu era a primeira da sua vida, não a sua família, não as nossas diferenças, não os seus métodos e discrição, mas eu. Até hoje pergunto como consegui extrair isso de você. Acho que não tenho resposta.

Ontem era muita festa, muito riso meu, muita conversa, comida, bebida, cigarros, gente e alegria e tão pouco de nós duas. Era o nada, a pior solidão.Essa carta não tem um fim ou encerramento, apenas estou usando suas parafernalhas argumentativas para tentar expressar o quanto sinto falta do contato anteriormente estabelecido. Espero estar com você, mas sem me sentir só, em breve.
com muito amor,
Inês"

Monique Brasil