"Querida Ana,
tinha muita gente e pouco nós. Sorrisos enchiam a
nossa mesa, eu repartia nossa comida, servia a nossa bebida e
compartilhava dos sorrisos e conversas. Você se aquietava em outro ponto
do cenário. Por um segundo tudo isso me ensandeceu. Quando todos foram
embora o vazio continuava, sentamos lado a lado evitando olhar uma para a
outra e enxergar esse nosso amor enviesado.Eu tentava te distrair
falando de coisas aleatórias, você observava as suas unhas, soltava
alguma interjeição e voltava para si mesma. Senti aquilo como uma
morte.
Eu estralava os dedos. Voltamos ao ponto de antes quando
eu evitava o toque ou qualquer proximidade ao seu corpo estralando os
dedos. Com os homens sempre soube o limite que havia entre um gesto
carinhoso e transmitir uma mensagem sexual. Entre nossos corpos tão
semelhantes eu tinha medo. Acreditava que a qualquer momento as minhas
mãos poderiam tocar o seu busto e imaginava as minhas nádegas no seu
colo. Era muito forte essa imagem na minha cabeça, então evitava
qualquer movimento em direção a você. Sempre acreditei que você conhecia
todos esses limites. Mas talvez não…
Novamente você estava ao meu
lado e minha única satisfação era saber que apesar do nosso
distanciamento proposital você estava ali simplesmente por gozar da
minha companhia. Mas novamente voltada para si. Se aquietava buscando
tocar seus cabelos, olhar suas unhas, recostar a cabeça no sofá, como se
ao se voltar para seu próprio corpo evitasse tocar o meu. Eu só
estralava os dedos e conversava trivialidades de maneira frívola.
Parecia que o tempo nunca havia passado, nada acontecido e eu estava de
novo a sós com você, mas completamente só.
Eu lembro a primeira
vez que sua risada tomou conta do meu quarto. Não era só sua risada que
eu ouvia, mas a sua intimidade comigo. Aquilo que era mais difícil para
você, querida, rir em alto e bom som na frente de outra pessoa estava
acontecendo comigo. Sua risada alta era mais íntima do que seu corpo nu
no meu colo. Nesse momento o mundo me pareceu mais concreto e real. Eu
era a primeira da sua vida, não a sua família, não as nossas diferenças,
não os seus métodos e discrição, mas eu. Até hoje pergunto como
consegui extrair isso de você. Acho que não tenho resposta.
Ontem era muita festa, muito riso meu, muita conversa, comida, bebida,
cigarros, gente e alegria e tão pouco de nós duas. Era o nada, a pior
solidão.Essa carta não tem um fim ou encerramento, apenas estou usando
suas parafernalhas argumentativas para tentar expressar o quanto sinto
falta do contato anteriormente estabelecido. Espero estar com você, mas
sem me sentir só, em breve.
com muito amor,
Inês"
Monique Brasil
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