segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Querida Ana,
tinha muita gente e pouco nós. Sorrisos enchiam a nossa mesa, eu repartia nossa comida, servia a nossa bebida e compartilhava dos sorrisos e conversas. Você se aquietava em outro ponto do cenário. Por um segundo tudo isso me ensandeceu. Quando todos foram embora o vazio continuava, sentamos lado a lado evitando olhar uma para a outra e enxergar esse nosso amor enviesado.Eu tentava te distrair falando de coisas aleatórias, você observava as suas unhas, soltava alguma interjeição e voltava para si mesma. Senti aquilo como uma morte.

Eu estralava os dedos. Voltamos ao ponto de antes quando eu evitava o toque ou qualquer proximidade ao seu corpo estralando os dedos. Com os homens sempre soube o limite que havia entre um gesto carinhoso e transmitir uma mensagem sexual. Entre nossos corpos tão semelhantes eu tinha medo. Acreditava que a qualquer momento as minhas mãos poderiam tocar o seu busto e imaginava as minhas nádegas no seu colo. Era muito forte essa imagem na minha cabeça, então evitava qualquer movimento em direção a você. Sempre acreditei que você conhecia todos esses limites. Mas talvez não…

Novamente você estava ao meu lado e minha única satisfação era saber que apesar do nosso distanciamento proposital você estava ali simplesmente por gozar da minha companhia. Mas novamente voltada para si. Se aquietava buscando tocar seus cabelos, olhar suas unhas, recostar a cabeça no sofá, como se ao se voltar para seu próprio corpo evitasse tocar o meu. Eu só estralava os dedos e conversava trivialidades de maneira frívola. Parecia que o tempo nunca havia passado, nada acontecido e eu estava de novo a sós com você, mas completamente só.

Eu lembro a primeira vez que sua risada tomou conta do meu quarto. Não era só sua risada que eu ouvia, mas a sua intimidade comigo. Aquilo que era mais difícil para você, querida, rir em alto e bom som na frente de outra pessoa estava acontecendo comigo. Sua risada alta era mais íntima do que seu corpo nu no meu colo. Nesse momento o mundo me pareceu mais concreto e real. Eu era a primeira da sua vida, não a sua família, não as nossas diferenças, não os seus métodos e discrição, mas eu. Até hoje pergunto como consegui extrair isso de você. Acho que não tenho resposta.

Ontem era muita festa, muito riso meu, muita conversa, comida, bebida, cigarros, gente e alegria e tão pouco de nós duas. Era o nada, a pior solidão.Essa carta não tem um fim ou encerramento, apenas estou usando suas parafernalhas argumentativas para tentar expressar o quanto sinto falta do contato anteriormente estabelecido. Espero estar com você, mas sem me sentir só, em breve.
com muito amor,
Inês"

Monique Brasil

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