Estava aqui olhando algumas fotos
antigas, onde eu ainda possuía um longo cabelo, usava maquiagem e portava-me
como princesinha do post-punk. Entrei em um processo de transição capilar há
quase um ano, e confesso que minha auto-estima está devastada porque não
consegui atingir o resultado esperado: meu cabelo simplesmente não cresce em
algumas partes e há quase seis meses só uso ele preso para esconder. E nesse
tempo, ainda tirei o piercing, que para mim tinha um grande significado de “feminilidade”
e quase cessei o uso da maquiagem. Estou escrevendo isso, por um texto que
minha amiga postou, em resposta há uma acusação por ela ser “cis” e “nunca
saber o que é apanhar por não ser mulher o suficiente”. Hoje vejo como a imagem
do que é “feminilidade” é tão fortemente introjetada pela gente. Mesmo a gente
sendo feminista.
Gênero é uma
construção social, demarcada a partir da diferença biológica: aos homens são
dados os privilégios, e às mulheres negados. Em uma sociedade patriarcal, a
construção do feminino é ditada por homens, pois estes são os detentores do
poder. No entanto, isso se dá de maneira muito mais complexa do que aparenta: além
das violências explícitas, as construções de hierarquia são feitas em cima de
uma linguagem, de um discurso e também em cima do não-dito. É por isso que o
poder é difícil de ser percebido e mais difícil ainda de ser derrubado. Não
enxergamos nossas opressões, pois elas já se dão no mundo antes mesmo de
nascermos. Então, desde a maternidade nos designam um gênero: o sapatinho rosa,
o furo na orelha, o sapatinho “delicado”, e isso está tão intrínseco ao nosso
ser, que naturalizamos o que nos foi imposto.
O que é ser
mulher, afinal? E o que minha autoestima derrotada tem a ver com a construção
do feminino? Porque me senti “menos mulher” por não tem um cabelo comprido,
liso e não abusar mais da maquiagem? É isso que faz de mim uma mulher? Porque,
mesmo sabendo de toda a finalidade na maneira por como os corpos são lidos, eu
ainda sou atingida por estar fora de um padrão construído por quem eu luto
tanto contra? Essas são as perguntas que me movimentaram para outro
entendimento sobre como me defino como mulher.
Até uns cinco
anos, eu sempre fui uma criança “bonitinha”, era a cinderela do desfile do
colégio e o anjinho que coroava Nossa Senhora na igreja. Porém, conforme fui
crescendo fui “enfeiando”, lembro-me que era cobrada pela minha família com
frases do tipo: “Nossa, mas o que houve com seu cabelo? Era tão bonito!”. E
nessa mesma época tive algo na pele do rosto (que até hoje não faço idéia do
que era) que me deixou carimbada como “feia”. Pouco tempo depois, ganhei o
apelido de “Dona Gigi” no colégio, pois não conseguia ser bonita, enquanto
minhas amigas eram. Eu tentava, mas sempre sentia que estava inferior, e as
pessoas ao meu redor confirmavam isso. Logo que entrei na pré-adolescência as
espinhas começavam a comer meu rosto. Não eram duas ou três, era um conjunto de
marcas horrorosas que me faziam ter vergonha de mim mesmo. Eu chorava escondido
no banheiro, tentando aprender a me maquiar sozinha para disfarçar o quão
monstruosa minha face tinha se tornado. E com o tempo, elas só pioravam,
espalharam-se pelas costas e em certo momento, eu questionava a vida porque fui
escolhida por passar por aquilo tudo, enquanto aparentemente, as outras meninas
pareciam tão satisfeitas com sua aparência. Eu era zoada no colégio porque
tinha o “cabelo ruim”, não tinha “corpo” igual ao das outras meninas, e era
coberta de espinhas. Ser bonita era algo que parecia não estar destinado a mim.
Acho que a primeira vez que me senti bonita mesmo, foi ano passado, essa época
retratada no começo do texto, onde mais eu me aproximei daquilo que chamam de
padrão.
No entanto,
nenhuma dessas coisas me definiu como mulher: nem ser a “feia”, nem a “bonita”.
Minha experiência em Ser Mulher resume-se em ser sobrevivente disso tudo. Uma
luta estava declarada a mim, antes mesmo de eu saber, e ter passado por ela (e
ainda passar), é o que sustenta minha vivência. A construção do feminino também
é uma violência de gênero. Imagino quantas meninas não passaram pelo que eu
passei, de sentir-se sempre a “feia” e insuficiente. Penso que até mesmo essas
amigas, das quais eu me sentia tão inferior estando perto, também tiveram suas
noites de choro por nunca conseguir atingir o ideal de feminino.
Hoje em dia, a
luta continua, mas em uma direção oposta de romper ao máximo com tudo que me
foi imposto. Se para ser bonita eu preciso queimar meu couro cabeludo, até
chegar a formar bolhas, de tanto produtos químicos; eu prefiro continuar
escolhendo não ser. Se para ser bonita, eu preciso estar com a pela de
porcelana, escondendo em cinco camadas, a realidade da minha pele e as marcas
que meu rosto carregam; eu prefiro continuar escolhendo não ser. Eu escolho
abrir mão da minha “feminilidade”, porque ela foi construída para me fazer
sentir mal toda vez que comparo o padrão com a imagem que o espelho reflete e
ficar na busca eterna pelo ideal do qual nunca vou alcançar. Mas abrir mão de
ser “bonita” e ser “feminina” não me torna menos mulher, porque minha realidade
de Ser Mulher não foi construída em cima disso, e sim, em cima dessa luta
eterna, travada contra mim desde o nascimento e que vou batalhar até o dia em que eu morrer. Minha
experiência como mulher é construída em cima de dor e violência, que me
impulsionam cada dia mais a querer lutar para o rompimento dessa imposição,
para que assim, minhas netas e bisnetas sejam livres de verdade para explorar
sua existência sem estar sujeitada a um gênero.
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