Parte I: Assustada por tentar criar um espaço de mim, mas saber que este espaço já existe, assim como outros, perdidos no espaço tempo.
Parte II: Imagem especular. Eu sinto que ainda preciso me constituir, isso soa autoajuda babaca, ame a si mesmo, mas não é. O processo, na verdade, é o inverso. Eu me constituo na base do ódio e da tristeza, mas ainda assim, são substâncias. Não estou me alimentando de nada.
Parte III: Sou brasileira, pobre, tenho vinte e seis anos em meio a uma pandemia jamais vista. Me isolei socialmente, assim como o mundo todo, nada novo se não fosse uma autorização implícita que me retirasse do abismo. Meu abismo tem nome e se chama: sou a filha de um petroleiro e de uma dona de casa, ambos sem estudos. Ingressei na universidade via política pública, com dezessete anos. Eu me sentia especial nessa época, era um orgulho para a minha família. Pisei no abismo pela primeira vez quando terminei o sonho-brasileiro e me vi com nada em mãos. Não havia emprego e para os estudos em universidade pública eu ainda não era boa. Caso quisesse, eu teria que pagar. Dois anos assim, de novo virou, entrei em uma residência em uma universidade pública em um dos maiores hospitais pediátricos da América Latina. Mas nada é suficiente para o pobre. A vida é feita para quem tem capital, incluindo o capital de contatos. Todas as vagas são indicações. Eu me odeio por ser pobre. Eu me odeio por não pode investir uma grana para ter meu consultório porque estou preocupada em simplesmente ter um teto. Eu saí de uma cidade medíocre de dez mil habitantes, fui para a capital e de novo, estou de volta. Eu odeio voltar. Aqui eu não tenho quarto, lá eu morava na Vila Mariana. Eu odeio não ter teto. Ter teto é ter garantias.
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